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Caminho para o Monte Everest por Ivan Salomão

Monte Everest

Por Ivan Salomão

Conhecer o Monte Everest, o Sagarmatha em nepalês, que significa Testa do Céu, era um sonho do meu pai há 15 anos. Ele queria a companhia da minha mãe para a peripécia, mas não era tão tentadora para ela.

Afinal de contas, estamos falando de um lugar que abriga nada menos que as maiores montanhas do mundo, nas Cordilheiras do Himalaia, entre a China e o Tibet, com cumes que ultrapassam 8 mil metros e levam alpinistas a autossuperação em expedições e, também há tristes casos malsucedidos, como a tragédia de 1996 agora contada no filme “Everest”.

Com a recusa da minha mãe, acabei “caindo de paraquedas” no caminho para o Monte Everest com o meu pai e, como um fiel escoteiro, não dispensei o convite para a aventura radical. Encarnei um montanhista que desafia seus limites e essa foi uma das melhores decisões que já tomei em minha vida.

Preparativos

Começamos a nos preparar 10 meses antes para a trilha íngreme. Compramos as botas de escalada para serem amaciadas no treinamento e realizamos viagens para Minas Gerais e para o Chile, onde caminhávamos por 8 horas seguidas, em diferentes níveis de subidas, situações de clima, relevo e altitude.

Quando embarcamos, foram 20 horas de voo, no total com escala em Doha, no Qatar – Emirados Árabes, até o aeroporto internacional de Kathmandu.

Conhecendo Kathmandu

Desembarcamos em Kathmandu, capital do Nepal, para o hotel reservado. No caminho, o guia dava as recomendações, uma delas era a de não escovarmos os dentes com a água da torneira, pois, como não estávamos acostumados com as bactérias, podíamos ser contaminados.

Mesmo confortável, o hotel tinha quedas de energia. Com isso, descobrimos que Kathmandu, literalmente, apaga à noite e, mesmo assim, as pessoas perambulam pelas ruas no escuro. A cidade possui 14 horas de blackout diário a partir das 20 horas e apenas alguns hotéis e restaurantes têm gerador.

Já que era para nos aventurarmos, começamos logo. Arriscamos um passeio no breu da cidade com lanternas e essa experiência foi bastante curiosa, porque não sentimos medo algum. Bem diferente do nosso universo Ocidental, a população transmite tanta serenidade que você não imagina a maldade ali. Eu, simplesmente, sabia que nada aconteceria com a gente.

Foram quatro dias em Kathmandu para adaptar o relógio biológico e para alugar os caríssimos trajes e equipamentos adequados à caminhada que nos levariam aos 5.500 metros de altitude do Base Camp nos pés do Monte Everest.

Com clima entre 20˚ e 25˚ e o ar “empoeirado”, as ruas de Kathmandu são estreitas com construções antigas que parecem estar caindo aos pedaços. Conforme andávamos pelas ruas, os fios e os cabos emaranhados sobre nossas cabeças nos postes, faziam-me questionar como aquilo era possível e como não pegavam fogo. Além dos fios, vimos construções demolidas, em que o entulho era jogado ali mesmo em frente ou ao lado do local, dando uma aparência bagunçada e de sujeira.

Em cada esquina, havia templos Hindus com uma estatueta representando algum deus. O mais visto era o Ganesh – o Deus do intelecto, da sabedoria e da fortuna – esse último atributo, controverso com a realidade do país. Um fato que despertou bastante nossa atenção foi ver homens nepaleses de mãos dadas ou abraçados, ou ainda, sentados no colo um do outro. Depois de estranharmos um pouco, descobrimos que não eram homossexuais, e sim que é costume quando há uma amizade entre homens. Mas, já um casal, formado por um homem e uma mulher, jamais poderia ter esse comportamento em público, nem mesmo sentam juntos à mesa de um restaurante.

Inclusive, o nosso tapinha nas costas Ocidental, como forma de cumprimento, para os nepaleses era uma surpreendente “passadinha de mão na bunda” e, nesse contexto, eu tive a “honra” de ser cumprimentado, ao mesmo tempo que soltei um “Opa, amigão!”

Ainda em Kathmandu, assistimos uma cremação tradicional que acontecia ao ar livre. Uma pira enfeitada com flores suportava o corpo de alguém que devia ser importante. Quanto maior a pira ou quanto mais flores tiver, mais rica a pessoa é. Passamos pelo “retiro espiritual Hindu”, onde conhecemos os Sadhus verdadeiros. Os Sadhus são homens que se isolam renunciando todos os seus bens materiais para se entregar à vida espiritual e, por isso, às vezes, não cortam as unhas ou os cabelos. Já os Sadhus falsos têm aparência exótica, pintam-se e vestem-se com muitas cores e fazem isso como sustento. Mas, o mais marcante, foi acompanhar uma cerimônia num mosteiro. Após a oração, quando os monges tocaram o instrumento tradicional do Tibet, o Dung-chen, seu som que é inigualável e ecoa em regiões montanhosas, foi realmente de arrepiar!

A Trilha

Começamos a trilha aos 3 mil metros com a meta de atingir os 5.500 metros no Base Camp. Acima, seria a Zona da Morte, o início da escalada do Monte Everest até o ponto mais alto da terra aos 8.848 metros de altitude. Não dessa vez, quem sabe na próxima! Levamos toda a comida para os quinze dias de caminhada e a água pegávamos nas nascentes e colocávamos pastilhas de cloro e iodo para descontaminá-la e ingeri-la. Junto com a gente, foram os carregadores, chamados de Xerpas, que “voavam” por nós, descalços com camiseta fininha e com inacreditáveis 50 quilos nas costas das bagagens e, para isso, recebiam apenas 1 único dólar por dia. Nessa situação, comentei que ao final da jornada, doaria minhas botas ao Xerpa, mas ao me ouvir, o guia garantiu que ele as venderia para conseguir comida. Percebi, então, que por mais compaixão que eu sentisse não mudaria, nem de longe, o cenário dos nepaleses. Momentos como esse e o sentimento de impotência perduram até hoje em meus pensamentos.

A trilha do Base Camp possui lodges – cabanas de pedras com revestimento interno de madeiras e já estavam reservadas. Neles, fazíamos as pausas para nos alimentar e pernoitar com bolsas de água quente dentro do saco de dormir. Detalhe para o saco de dormir, próprio para suportar até -30˚. À noite, caía muito a temperatura. Lembro que a garrafa de água sempre congelava. Mas mesmo com o frio, dormíamos bem, pois sempre estávamos cansados de todo esforço físico da subida. A única coisa que, às vezes, nos acordava, durante a noite, era os sons de longe de algumas avalanches. Por mais que eu queira, não esqueço de quando os nativos cozinhavam para nós. Era desconfortável lembrar que para eles, a mão direita é a mão considerada limpa e, por isso, usada para cozinhar e comer, já a mão esquerda é a suja, usada, exclusivamente, para se limpar, uma vez que lá não existe papel higiênico. Aí eu pensava, vai que, literalmente, “erram a mão” no tempero.

A temperatura na trilha variava entre 15˚ e 20˚ e conforme subíamos caía ainda mais. Mesmo preparados, o frio, os raios UV e a claridade intensa judiavam nossa pele e os lábios. Para hidratar e não queimar, passávamos cremes e pomadas e para respirar melhor, usávamos o soro fisiológico. Um destino assim exige preparação. Uma moça da equipe, que inclusive já conhecia as artimanhas da aventura, enfrentou o entardecer gelado para assistir a magnificência do pôr do sol. Sem dúvida, ver o sol se pôr da Cordilheira do Himalaia não é a mesma coisa do que ver da pracinha de casa, mas como consequência da ousadia, arriscou a vida com uma hipotermia. Trazida inconsciente para o lodge, foi preciso que o marido entrasse com ela no saco de dormir com bolsas de água quente para esquentar o corpo e por sorte, recuperou os sentidos dela. Um homem do grupo, mesmo com óculos escuros apropriados para se proteger dos raios UV, teve cegueira e precisou usar um tampão até se recuperar. Também conhecida por snowblindness, é uma queimadura na córnea causada pela neve a qual potencializa os efeitos dos raios solares. Tanto é possível recuperar a visão como, em alguns casos, nunca mais enxergar.

Caminhávamos, em média, seis horas por dia, desde às 7 da manhã com pausas para o almoço e às 19 horas já estávamos prontos para dormir. O frio era mesmo de doer. Tirar a roupa estava fora de cogitação e, por isso, fiquei seis dias sem tomar banho, ainda mais que os banheiros dos lodges eram a céu aberto. Nas trilhas, não havia latrinas, fazíamos as necessidades fisiológicas ao modo natural na moita mais agradável. Ao subir, sentíamos os efeitos da altitude, o coração batia mais forte, as dores de cabeça e a falta de ar eram os mais comuns, exigindo que diminuíssemos as passadas. Fui bem até os 4 mil metros. A partir desse ponto, passei a sentir dores fortíssimas no joelho, obrigando-me a seguir a cavalo.

Era isso ou, conforme as opções que o guia me deu, voltava a trilha. Jamais!

O grupo não chegou junto, respeitando o ritmo de caminhada de cada um. Ao atingirmos nosso objetivo, com o sentimento de missão cumprida, meu pai gravou um vídeo emocionado com sua conquista.

O Resgate

A dor no joelho não passava, o guia informou que eu seria transportado para um hospital Canadense, em Kathmandu, de helicóptero. De toda a viagem, esse foi o momento mais preocupante, porque já conhecia histórias de acidentes nesta região, devido a altitude, a capacidade da aeronave, entre outros fatores. No dia, nevava muito e a visibilidade estava péssima, mas graças Deus tudo deu certo. Anos depois, me deparei com uma triste notícia: o piloto que me socorreu havia falecido em outro resgate, acidentado em um fio de alta tensão. Descobri mais tarde que as dores no joelho eram uma tal de condromalacia patelar (só o nome já dói) ou amolecimento da cartilagem, desencadeada pelo esforço físico, em subidas e descidas. Ou seja, bem apropriado para as condições em que me encontrava.

Lembranças e impressões

Uma delas é a vista privilegiada. A cada curva, víamos uma paisagem diferente. É muito difícil descrever o cenário desse roteiro, porque não só se vê quando está lá, você sente e muito. Enquanto se depara com o contraste das rochas escuras com a brancura da neve, com rios em meio ao relevo montanhoso e com a vegetação diversificada, você tenta absorver a extraordinariedade da natureza e só consegue se deslumbrar. Outra recordação é o contraste cultural, é quase inexplicável a discrepância da miséria impetuosa com a simplicidade e a brandura das pessoas, a paz e a tranquilidade do lugar. Uma energia rara. Mesmo com toda a miséria, a impressão que se tem é a de que preferem morrer de fome a cometer um crime. Você verá muitos pedintes, mas não verá a malícia ou a marginalidade. Sem demagogia, era possível sentir tanta pureza, que mais parecia ser um lugar surreal, feito para treinar ou despertar o seu altruísmo e o seu senso de solidariedade. Com toda certeza, esse é um lugar para passar em sua vida.