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Caminho de Santiago de Compostela

caminho de santiago

OS 35 DIAS DE CAMINHADA que mudaram minha vida.

Era início do ano 2000 quando uma pequena semente foi plantada em minha cabeça. Eu morava com a minha família em Portugal e tínhamos uma loja que vendia diversos produtos brasileiros e alguns trabalhos manuais que fazíamos. Ali, entravam pessoas de diversas partes do mundo e foi de um cliente que ouvi falar pela primeira vez sobre o Caminho de Santiago de Compostela. Eu achava que era um lugar diferente, que me podia trazer algumas respostas. Então, decidi atravessar a fronteira e iniciar minha jornada pela França.

Do ponto onde comecei a caminhada até Santiago davam quase 900Km. Ou seja, é uma viagem para fazer com tempo e calma. Só assim você aproveita ao máximo os lugares pelos quais passará e as diversas pessoas que cruzarão o seu caminho.

Para iniciar a caminhada é necessário fazer um cadastro de peregrino, você recebe uma planilha com a localização dos albergues e uma espécie de passaporte. Esse documento serve para você passar as noites nesses lugares sem pagar nada. O esquema funciona assim: quando você dorme em um albergue, ele te dá um carimbo no seu passaporte. Ao avançar o caminho e chegar no próximo albergue, esse conferirá o carimbo do albergue anterior e, se estiver ok, concederá a estadia. E assim funciona sucessivamente até o fim da caminhada.

Posso dizer que minha jornada de 35 dias até Santiago de Compostela foi dividida em três vertentes: lugares, pessoas e pensamentos.

Em primeiro lugar, o destaque, obviamente, fica por conta das belas paisagens e lugares curiosos. Ao longo do caminho, você passa por florestas de carvalho, plantações de trigo e pequenas aldeias que parecem ter parado no tempo. Dentre esses lugares, a minha melhor recordação é de um local chamado Foncebadón, onde havia uma verdadeira taberna medieval. Mesmo assim, o mais incrível dali não era o aspecto antigo, as paredes de pedras ou os enormes barris de vinho que pareciam ter séculos de existência. O que realmente chamou minha atenção foram as pessoas. Eram homens e mulheres que, assim como o lugar, também pareciam ter parado no tempo.

Eu estava com mais dois amigos que conheci durante a viagem. Nós jantamos na taberna e resolvemos ficar mais um pouco, porque haviam nos informado que aconteceria uma espécie de ritual. Ficamos lá e presenciamos um show com uma mulher e duas crianças. Elas fizeram uma pequena fogueira dentro do estabelecimento, na qual jogavam alguma coisa que promovia pequenas explosões. Aquilo foi inesquecível.

As pessoas também são grandes protagonistas dessa viagem. Eu comecei a caminhada sozinho, mas de tempos em tempos havia alguém seguindo meus passos ou vice-versa. Eram pessoas de todos os tipos: empresários de férias, estudantes aventureiros, religiosos, hippies e até aposentados. Ou seja, gente bem diferente, mas que se tornavam iguais por momentaneamente ter o mesmo objetivo: chegar a Santiago de Compostela.

Por isso, apesar das diferenças sociais e culturais, há uma grande cumplicidade entre todos os peregrinos. O maior exemplo disso acontecia nos próprios albergues. Às vezes, por desviar do caminho para conhecer alguma coisa diferente ou simplesmente por espaçar mais a caminhada, acabava chegando muito tarde nos albergues e com fome. Vendo minha situação, grupos que haviam chegado antes no albergue e que já haviam cozinhado me convidavam para comer com eles. Noutros dias, quando a situação era inversa, eu também chamava alguém para compartilhar minha refeição.

Esse é definitivamente um dos aspectos mais belos e marcantes do caminho: as pessoas se ajudam. E não é só na hora de comer, não. Há sempre alguém disposto a estender a mão, seja para dar apoio a alguém com dores, dividir a água ou fazer companhia a quem precise. O exemplo máximo disso estava num cartaz ao lado de um pote de dinheiro, em um dos albergues pelos quais passei. Nele, estava escrito algo como “Se você tem dinheiro, contribua. Se não tem, pegue o que precisar”. Dá pra imaginar isso?!

Por fim, os pensamentos não poderiam ficar de fora desse pequeno relato. Caminhar durante horas, às vezes, totalmente calado, faz a cabeça funcionar a pleno vapor. Você acaba lembrando de recordações perdidas da infância, fatos isolados e cenas da sua vida que pareciam vagar sem rumo no imaginário. Se há um lugar que possa despertar o autoconhecimento em uma pessoa, esse lugar passa pelo Caminho de Santiago de Compostela.

A parte triste da viagem, ironicamente, é a chegada propriamente dita à cidade que batiza o Caminho. Por mais que esse seja o objetivo de todos os peregrinos, o fim da caminhada traz sensações estranhas. Durante o percurso, você entra numa espécie de transe, afinal, as horas diárias de caminhada nos levam a patamares superiores de concentração. E a chegada a Santiago parece interromper isso. Você fica um pouco perdido de início. Passei três dias na cidade, porque não conseguia ir embora e encarar que minha jornada havia terminado. Para se ter uma ideia do quanto isso mexe com a gente, havia alguns peregrinos que, ao chegarem a Compostela, começavam a caminhar de volta por onde vieram só para permanecerem por mais tempo no Caminho.

Já faz 14 anos que fiz essa viagem, mas constantemente eu me lembro das lições que aprendi. Lá, percebi que as pessoas são iguais, que os lugares são passageiros e que antes de conhecer o mundo precisamos conhecer a nós mesmos. Até hoje, mesmo numa pequena caminhada, eu aproveito o tempo para refletir, observar tudo a minha volta e relembrar a experiência de 35 dias que mudou a minha vida.